quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"A moda não é só roupa"

A frase é do estilista Jum Nakao, que esteve em Maringá durante a Semana de Moda do Cesumar e foi entrevistado pelo blog “Chega do Mesmo”.
Jum Nakao é um dos mais importantes nomes da moda brasileira. Ele é lembrado principalmente pela coleção “A costura do Invisivel”, apresentada em 2004 na Semana de Moda de São Paulo (SPFW). No final do desfile, as modelos rasgavam as roupas de papel.

Durante sua passagem por Maringá, no início de agosto, Nakao conversou com a reportagem do blog “Chega do Mesmo”. Confira:

Mayara: A coleção “A costura do Invisível” causou muitos comentários. Quando se fala em Jum Nakao, a maioria das pessoas lembra dessa coleção de papel. Essa reação já era esperada?
Jum Nakao: Não, a gente não fez nada pensando que iria virar o que virou. Eu acho que se você faz as coisas pensando na reação das pessoas, não faz o que tem que ser feito. Às vezes, aquilo que é dito não é o que as pessoas querem ouvir.

M: Você vê a moda sob essa perspectiva do conteúdo. A moda pode ser um agente de transformação?
J: Com certeza. A moda não é só roupa, tecido. A moda é aquilo que você ouve, lê, os filmes que você assiste. Isso vai fazer com que você tenha uma opinião. A partir do momento em que você tem essas informações, você começa a se vestir espelhando sua resposta para o mundo. Quem não tem conteúdo é como se vestisse um corpo vazio de ideias. Então eu acho que é importante que as pessoas pensem por esse aspecto antes de pensarem em vestir uma marca. Por que eu vou vestir uma marca se não faço diferença alguma e se não tenho o que dizer, nenhuma opinião, nenhuma absorção do mundo?

M: Você chegou a cursar engenharia. Como foi a mudança para o mundo da moda?
J: Quando eu pensei em tecnologia foi como um suporte. Eu queria usar a tecnologia para me expressar para as pessoas. Hoje, em qualquer lugar que você vá, qualquer exposição de arte, bienal, você vê essa tecnologia muito presente, como uma interface, uma forma de expressão, uma forma de criar novas relações de percepção com o mundo. Mas há 20 anos, quando eu comecei a pensar em usar a tecnologia, era como se eu estivesse falando em ficção científica nas escolas. Os professores não queriam, não tinham esse foco de pensar em multimeios, linguagem. A ideia deles era formar pessoas para trabalhar numa linha de produção. Foi nesse momento que eu procurei outra forma de interagir e de agir e, por isso, fui para moda.

M: Como você vê a moda hoje? Quando você começou as coisas eram muito diferentes?
J: Eu estou há 25 anos batalhando para que as coisas aconteçam. Nos anos 80 eu me encontrei com Walter Rodrigues e outros estilistas com a ideia de criar um pensamento criativo, ter uma outra cena acontecendo. Só que era muito cedo, tive que esperar dez anos. Em 1996, participei do Phytoervas Fashion e percebi que era o momento de fazer a diferença. Depois de 10 anos, eu consegui mudar muito pouco porque no nosso País falta muita educação e falta muita cultura. Faltam muitos valores na nossa cultura, precisamos encontrar nossas singularidades, nossas individualidades. Nossa cultura ainda não tem uma autovalorização, um autorreconhecimento. Quando você fala num processo de identificação, você busca o espelhamento. A identidade está muito ligada a você buscar uma cópia. É um processo para que você realmente descubra a individualidade, a partir do momento em que você se olha no espelho e gosta de quem você é. Isso ainda não aconteceu com o Brasil. Eu estou desde 2004 batalhando para que essas mudanças aconteçam.

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